velhos
Que os velhos também viram jingões,
que ignoram normas e fecham os olhos
aos comentários alheios,
quando nas portas da morte
já só se cumprimenta o final vizinho
Que então a vida seja como reter
esta infância ao longo do crescer
que seja uma aventura que continuamente se tropeça
que ser criança é onde tudo acaba e começa
aqui viviam pessoas

o sr moedas nas ruas pessoas deixa
basta sem abrigo na berma repousar
logo vem a câmara alertada pela queixa
diga o sr iluminado, para onde se deve ir
já sem casa nem passeio, que canto pra dormir
nas paragens da carris já não há electricidade
‘inda fala o doutor sobre segurança na cidade
ao exmo sr tudo lhe é alheio:
ciclovias ou jardins, WC’s ou passeios
andar aqui só de carro, então e os outros meios?
ruas “limpas” - nos cantos o despejo,
nesta moldura papal mal me revejo
lembre-se o tecnocrata quando
na varanda, a brisa fresca desfrutar
e reluzente, de cima para baixo olhar
a triste glória caída ignorando
a rua é de quem nela passa
não de quem azul a traça
camaleão

o camaleao paga o preço
da sua cor mutável
cada ramo, cada folha, uma
textura nunca sua e instável
o seu pigmento receita da mentira,
manto do ego, vazio armário nem respira
translúcida pele em ser opaco
que se descama
gesto parcial e infinito
restam fissuras, covas, buracos,
vales e protuberâncias
que foram outrora identidade em impasto
ainda há magia
Ainda há magia, mesmo
quando alguém levanta o tapete e se vê
o chão marcado do sol danado
quando se pedem cafés sem início,
espumas dos dias aquentadas em vaporizador limpo,
carioca aguado das borras d’ontem
Talvez haja magia,
mesmo sem olhares nas caixas metálicas
ouço bater cada pestana,
cada soslaio um aplauso ao silêncio
átomo ensimesmado em seu momento
Sinto nos chinfrins dos carris
o tremer do outro no seu buraco
a sua ausência no tacto
Se houver magia,
procuro-a entre as linhas, no marchar das escadas,
em sovacos vadios, nas malas, cartões,
no tropeçar quotidiano,
Quando houver magia,
quero estar à janela, saltar fora
e agarrar o seu parto
memória

Ultimamente a memória afigura-se
não mais que arqueologia de experiências
numestática de sensações
categorização de emoções: arquivismo do próprio
sem futuro
garante-se, ao menos,
um trago redemptório do passado
meia dúzia de milhões e um bacalhau
para quem advinhasse que
a conservação e manutenção do momento
fosse o santo graal contemporâneo
tal a turbulência do mar
a terra faz-se de roubos parcos:
âncoras de informação
garantias
que o rebuliço diário
não é apenas atenção caduca:
que a espuma se condensa
pr’além do fluxo temporário
as pessoas

As pessoas” somos nós
pequenos jogos de ilusão
glitters requintados e jargão
fruta feia com buracos:
a humanidade entra dentro
da casca puritana e faz-nos
no núcleo, ainda
o que sempre fomos
em cada estilhaço de vidro
uma realidade refractada
um reflexo incógnito nas partes
esquiva-se do golpe identitário
num ringue quotidiano
onde luzes brilham
delimitando
teatros do olhar
que nem das árvores nem da terra
veio jamais alguma coisa sem pó
sem mazela, macerada, podre,
abaulada, siamesa, magricela
que nem por isso faltou na mesa de jantar
sumo fresco ou salada pra manjar
O que não presta para o balde
cães, patos ou galinhas, alguém há de apreciar
e aquilo que solução já não tem -
partes matreiras e disformes
inveja e sadismo que transborde
de vingança e crueldade enormes -
que venham adentro
tratamo-las como de costume:
junta calor e humidade, que dá bom estrume
e então?
que fazer das voláteis vozes que perduram?
deita-se chama que vão em lume